BEATRIZ KATCHI > TEIAS

DA TRANSLUCIDEZ À LUCIDEZ DA TRANSPARÊNCIA

Neste espaço que oscila da semi-obcuridade à luz, Beatriz Katchi propõe-nos uma instalação, aparentemente "bourgeoisiana", mas que é apenas um continuar das suas pesquisas sobre transparência, ocultação e desolcultação. Todo o espaço oscila entre a luz e a penumbra, da translucidez à lucidez da transparência.
Começa por nos propor um elemento que se desenvolve na verticalidade, que é visto porque a luz passa através do material translúcido quando se está de frente; à medida que a nossa visão se vai tornando lateral, a superfície de silicone dourado vai emitindo uma irradiação suave e misteriosa.
O ouro contido na peça, ora nos devolve apenas um reflexo atenuado, uma penumbra adormecida, ora ilumina a penumbra interior, sem nada perder do seu brilho.
Deste elemento, partem fios que se desenvolvem na diagonal ao longo do espaço, que constituem uma presença escultórica híbrida: uma teia ou um fio de Ariadne, porque é o agente de ligação à luz, o qual nos remete para a urdidura de Penélope, que marca o ritmo vital, a alternância indefinida da respiração, igual à do dia e da noite, aqui acentuada, pontualmente, por "gotas" de brilho.
E saindo da penumbra, eis-nos chegados a um espaço de luz e de transparência. Agora, o plano de suporte desenvolve-se na horizontal, constituindo um espaço outro, onde a invisibilidade da transparência da própria superfície e dos fios criam uma ambiguidade, um jogo de forma/fundo, que não aparece directamente perceptível. Porém, as formas desenham um contorno de transparência, que tomam corpo através da projecção da sua sombra no plano do chão.
Todo este simulacro de desenho parece ser a projecção de um mundo invisível, onde tudo existe a quatro dimensões e cuja projecção seria um mundo igual ao nosso. Se a geometria descritiva nos devolve em duas dimensões a aparência de um mundo que é, ele mesmo, em três dimensões, então, nós mesmos não seríamos senão, a simples projecção tridimensional dum universo em quatro dimensões...
...um universo de subtileza, um quase nada que se revela num lado outro da luz...

Iza Duarte Ribeiro


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