INÊS CABRAL > TEMPOS, SILÊNCIOS, RITMOS

É com uma aparente simplicidade que Inês Cabral ao falar da pesquisa subjacente ao seu trabalho nos remete para o conceito de vazio. Inquiriu sinónimos; "grau zero", "ausência", "intervalo", "invisibilidade", "pausa", "silêncio", "distância", "espaço" são alguns dos conceitos que questiona e elege como premissas.
Neste conjunto de telas e desenhos que nos apresenta, criou uma realidade dual resultante da articulação do real circundante com a realidade-ficção que elabora. Partiu de si, enquanto sujeito, para questionar a relação do homem-sujeito com a realidade que o rodeia. Procurando ultrapassar os domínios do inanimado, animado e do utilitário, deu espaço ao vazio através da cor. Partindo da materialidade tentou apreender a imaterialidade para chegar à fisicidade verdadeira das coisas. Contudo, no último trabalho de Inês Cabral o vazio predominantemente azul, não se limita a ser um elemento que rodeia, delimita e define a própria forma. Neste trabalho que nos remete para os versos de Su Dongpo, escritos a propósito de um quadro de bambu de Wen Yú-K'o, conduz o olhar do receptor para o que está representado e sugere o conceito de vazio na mente de quem vê. Tendo Heidegger e Fernando Pessoa como referências de eleição, é, no entanto, em Lao Tse, apreendido por Kakuzo Okakura e na "metáfora predilecta do Vácuo" que nos detemos para sugerirmos uma nova via de interpretação: "Só no vácuo, (...) Jaz o verdadeiramente essencial. A realidade de um compartimento, por exemplo, encontra-se no espaço vago enclausurado pelo telhado e pelas paredes, não no próprio telhado e nas próprias paredes. (...) O vácuo é todo poderoso porque é todo-abrangente. Só no vácuo o movimento se torna possível. Aquele que conseguisse fazer de si próprio um vácuo, no qual outros pudessem entrar livremente, tornar-se-ía senhor de todas as situações.
O todo pode sempre dominar a parte". Nesta direcção, este trabalho de Inês Cabral vai mais longe, leva a experiência estética, como sugerimos ao mencionarmos.
Su Dongpo, às últimas consequências. À semelhança de Yú-K'o retira-se sem se mover:

Quando Yú-K'o pinta bambus
Tudo é bambu, nada é gente
Diz-se que não vê pessoas?
Tão pouco se vê a si mesmo:
Absorto, bambu se torna
Um bambu que cresce e cresce
Desaparecido Chuang-tzu, quem mais tem
Este poder de ir-se sem se mover? 2

 

Elsa Penalva

1 In O Livro do Chá, Edições Cotovia, 1996
2 In A Flor da Ameixoeira, Poemas de Su Dongpo, Colecção Pedras Preciosas, Pedra Formosa, 2000

Nasceu em Lisboa, 1974.

HABILITAÇÕES LITERÁRIAS

1992-98: Licenciatura em Artes Plásticas - Pintura, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
1995-96: Bolseira do Programa Erasmus na Koninklijke Academie van Beeldende Kunsten, Den Haag (Haia), Holanda.
1997: Curso "Arte y Naturaleza - El Jardín como Arte", Huesca, Espanha.
1997: Curso "Gestión, Marketing y Patrocínio de Museos y Centros Culturales" - Universidad Politécnica de Valência, Espanha.
1998: Frequência do curso "Plástica Contemporânea", dos estudos de doctorado da Faculdade de Belas-Artes de San Carlos - Universidade Politécnica de Valência, Espanha.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

2001: Exposição de Artes Plásticas "Entre a palavra e a imagem: a possibilidade", inserida no ciclo de exposições Quatro EnQuadrado - Centro Cultural da Malaposta - Olival Basto.
1999: Exposição de gravuras "In-escrita" - Livraria Bulhosa - Lisboa.

EXPOSIÇÕES COLECTIVAS

2004
Exposição do III Prémio de Artes Plásticas - Baviera, Séc. XXI - Fórum Cultural de Cerveira - Vila Nova de Cerveira.

2003
Exposição do Prémio D. Fernando II/2003 - Sintra.
Leilão Jovens Pintores - Palácio do Correio Velho - Lisboa.

2002
VII Bienal de Artes Plásticas "Cidade de Montijo" (Prémio Vespeira) Montijo.
Exposição do Prémio D. Fernando II/2002 - Sintra.
Grafinnova 2002: Internacional Exhibition of Prints and Drawings - Ostrobthnian Museum - Vaasa, Finlândia.
Exposição do II Prémio de Pintura "Baviera" - Museu dos Transportes e Comunicações - Porto.
Colectiva de artes plásticas - Galeria Municipal do Montijo.

2001
Cena d'arte - Palácio Marim Olhâo - Lisboa.
Exposição das obras seleccionadas do Prémio de Pintura e Escultura D. Fernando II/2000 - V Edição - Sintra.
Exposição das obras seleccionadas do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso - Amarante.
Exposição das obras seleccionadas do IV Prémio de Pintura da Fundação Rotária Portuguesa - Tomar.

2000
Exposição das obras seleccionadas do Prémio de Pintura João Barata 2000 - Galena Barata - Lisboa.
Exposição das obras seleccionadas do Prémio de Pintura e Escultura D. Fernando II/2000 - IV Edição - Sintra.
3ª Bienal de Artes Plásticas da Marinha Grande "O Vidro Ano 2000" - Marinha Grande com itinerância em San lldefonso - La Granja, Espanha.

1999
X Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira.
Exposição das obras seleccionadas do Prémio de Pintura e Escultura D. Fernando II/99 - III Edição - Sintra.
Exposição de artes plásticas do Festival Insanidades - Institut Franco-Portugais - Lisboa.
Mostra Nacional "Jovens Criadores 99" - Braga.
6ª Bienal de Artes Plásticas da Cidade de Montijo "Prémio Vespeira" - Montijo.

1998
Exposição de Gravura "Graba2" - Galeria Punt i rattla - Valência, Espanha.
2ª Bienal de Artes Plásticas da Marinha Grande "O Vidro".
Grafinnova '98: Trienal of Prints and Drawings - Ostrobothnian Museum - Vaasa, Finlândia.

1997
Exposição de Pintura - Finalistas '97 - Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa.
Exposição de Pintura / Escultura / Gravura "Olhar ou Ver Perspectivas de Futuro" - Centro Cultural Emmerico Nunes - Sines.

PRÉMIOS E DISTINÇÕES

2003: Menção Honrosa - Prémio D. Fernando II/2003 - Sintra


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