PRÓLOGO
A noite tornara-se estranha. Longa. Segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora. De olhos espantados percorria a solidão do meu quarto. Como que em busca de conforto para o vazio dila-cerante nesta alma em sobressalto. Inquieta. Nervosa. Tremente. Tinha um terrível pressentimento — A Ruth ia viver pouco tempo? — Mas não! Eu não queria pensar assim. Só pensava agora no Paulo. Do seu corpo sem vida. Dentro duma qualquer caixa da morgue em Almada. Abandonado. E fazia-me perguntar vezes sem conta como é estar assim numa caixa frigorífica?
Meio estremunhado oiço o telefone, insistentemente. A varrer pela minha cabeça como que um grito. Naquela manhã de Maio que despontava pelas cortinas do meu quarto. São seis horas e trinta. A pensar sempre no Paulo, cambaleante, um pouco a medo, atendo o telefone...
— Estou. Bom dia. Faça favor...
— Bom dia senhor Carlos. É a enfermeira-chefe do Curry Cabral. Desculpe acordá-lo a esta hora.
A minha cabeça rebentava pela noite nunca dormida. Sempre revoltada, magoada, quedou-se. Como na espera de uma outra notícia.
— Sim, diga. Vai dar uma má notícia?
É verdade, meu amigo. A Ruth acabou de falecer!
Um baque tremendo no peito. Paro para respirar fundo. Queria gritar. Chorar. Mas não consigo. Uma dor terrível atravessa--me o corpo cansado. E só tenho tempo para dizer...
— Sigo já para aí. Eu aviso toda a gente! Desenfreadamente, como que galopando, vou a caminho do
Hospital e dou comigo em mil perguntas repentinas. Afinal não tive tempo de perguntar o que a Ruth queria? Porque é que ela morreu naquela madrugada? Afinal, o Paulo, o companheiro de sempre, juntava-se a ela na última caminhada? Ou era ela que ia ter com ele? Tinha sido eu, o último dos que estiveram a seu lado. Falando com ela. Passava um pouco mais da meia noite quando a visitara. A Tina tinha lá estado pouco tempo antes de mim... Uma visita assim de fugida. Entrara no quarto devagarinho. Ela estava deitada com o lençol e a manta sobre o corpo mirrado pela doença que a minava.
— Tenho tanto frio — queixou-se.
Ajeito-lhe a roupa. Olho-a emocionadamente. E finjo tudo.
— Tem calma. Vais ficar bem.
Ela treme. Tem a máscara do oxigénio entre as mãos, levando à boca vezes sem conta. Como que num sufoco permanente. E aspira. Uma vez mais. Corno que a pedir desesperadamente um outro regresso à vida.
— Estou tão cansada Carlos. Não vou ter muito tempo.
— Não digas disparates. O doutor disse-me que estás a reagir muito bem. Vá, aspira um pouco mais. Isto é que te dá forças.
Os olhos outrora grandiosos, são duas estrelas pequeninas. Luminosas ainda, fixando-me tristemente...
— Estás a dar-me mais tempo. Tivemos tanto tempo. Todo o tempo deste mundo e não aproveitei nada. Era tão bom que eu ficasse melhor. Para passearmos de carro. Sabes, arranjávamos um motorista e íamos para o Ribatejo. Gostava de ir a Rio Maior.
— Sim, eu sei. Vamos a todos os sítios que passámos juntos. Em Almeirim e na «Sopa da Pedra». Lembras-te?
— Tenho tantas saudades daquele tempo.
O tempo, sempre o maldito tempo. E eu quase que gritando para fora de mim tudo o que vinha na alma em desespero. Olho--a e tremo de medo com os esgares que os seus pequeninos olhos lançam. Adivinho naquele olhar o pedido de ajuda. E eu não sei que ajuda posso dar agora.
— Achas que o Paulo queria morrer primeiro do que eu?
— Não digas isso. O Paulo foi assim devagarinho. Como ele sempre quis ir. Ele sabia que ias ficar entre nós.
— Não te esqueças de nada para logo à noite. No espectáculo de homenagem dá um abraço a todas as pessoas. Quem não importa. Quero é que estejam todos comigo. Em paz. Não quero ficar magoada com ninguém. E pede perdão por mim. Não podes esquecer isso. E o meu vestido branco fica no palco. Faz de conta que sou eu. E a Sissi que cante para mim o «Malaãe».
Quero limpar uma lágrima que tarda a chegar. Mas não consigo. E os meus olhos marejados vagueiam por todo o quarto. Ali onde mora ainda a esperança. Essa esperança que povoa por toda a minha alma. Quero-a viva!
— Não, não me esqueci de nada Ruth. Não te preocupes, fiz tudo o que me pediste. E tudo vai correr bem. Vai aparecer muita gente que gosta de ti.
— Se eu morrer não esqueças de dizer um poema no cemitério. Para mim e para o Paulo. Quero ficar ao lado dele. Eu sei que te vou escutar. Eu sei que vais fazer tudo.
Ela olha-me já com uma infinita tristeza.
— Não fales assim Ruth. Ainda temos tempo pela frente. E de novo o seu olhar tremente. Da saudade anunciada.
As lágrimas caiem pelo seu rosto. Soluça. O corpo pequenino em ataques constantes. Tento aconchegá-la.
— Não Carlos. Não me toques que hoje estou muito mal. E o «bicho» pode pegar. Tens que estar bem de saúde — Queria dizer--te tantas coisas.
Eu não sabia o que dizia. Nem sabia o que lhe iria mais dizer. Um alvoroço crescente no meu corpo. E secava-me os lábios. Despedia-me da Ruth naquela hora? Mas eu tinha a certeza que ia de novo encontrá-la pela manhã. Como todas as manhãs. Com vida.
— Vou-me embora para descansares. Vê se descansas. Amanhã apareço cedinho. Depois tenho o espectáculo e gravo a cassete para veres como és querida por todos.
— Está bem meu querido. Vai descansar que precisas tanto. Amanhã falamos de tudo. E não esqueças de tudo que te pedi.
— Não, não me esqueço. Vais ver que tudo vai ser como desejamos. E agora dorme bem.
Ainda lhe pego nas mãos frias. Os olhos — aqueles olhos inesquecíveis! — fixam-me de novo. Tristemente. Como que a pedir todas as ajudas do mundo.
Saio do quarto com uma tristeza imensa. Digo adeus à enfermeira que me acena ao fundo do corredor. E saio para a rua altas horas da madrugada. Já são duas horas e tal...
Mas não! A realidade é outra. O tempo passou e estou a caminho do Curry Cabral. E são sete e quinze da manhã. A minha excessiva pontualidade!
Entro corredor adentro. E ainda abro a porta do quarto onde deixei a Ruth horas antes. Parecia-me mentira. Mas não. A cama vazia. O colchão dobrado. Um cheiro intenso a desinfectante pairava no ar. As enfermeiras chegam perto de mim. Como que numa mágoa conjunta. Abraçam-me ternamente. Uma delas diz...
— Foi muito corajosa. Morreu nos braços dos enfermeiros. Muito calma. Com uma grande serenidade. Estava tão cansada de sofrer...
Saio para a rua. E fico parado no tempo. De telemóvel na mão procurando saber a quem telefonar primeiro. E dou comigo a gritar para a primeira pessoa... MORREU A RUTH BRYDEN! |